Pequena África é homenageada pela Acadêmicos de Vigário Geral

Social, Cultural | 23/02/2022

As ruas que compõem a Região Portuária formam e fincam uma Pequena África no coração do Rio de Janeiro. Da batida de um tambor grave e do vento que balança a maré, assistiu-se o surgimento da raiz cultural carioca, que hoje é cantada e celebrada pela Acadêmicos de Vigário geral.

Num verso clamado, o samba nos diz: “Donde” vem essa voz seu moço/ é um canto de oração/ lerê lerê vem do Morro da Conceição”. Vem da rua, da viela, e principalmente, do quintal da Tia Ciata. Batizada Hilária Batista de Almeida, a mãe de santo e cozinheira, alimentou a cultura brasileira com os melhores temperos: samba e resistência.



De turbante na cabeça,a baiana subia e descia ladeiras com seus mais variados quitutes. Migrada da Bahia e trazendo sua ancestralidade por meio da comida, Hilária fazia e contava histórias, firmando ponto no palco do surgimento do samba: a Pedra do Sal.

“Prazeres por Heitor que deu o nome/ onde Donga ao telefone fez a jura pro Sinhô/ eu vi brotar João e Pixinguinha/ No terreiro das baianas”. Com tabuleiros fartos de cocada, abará e música, a casa de Tia Ciata se tornou ponto de encontro de importantes figuras da região e do samba. Assim, ao redor dela, entre chorinhos e prato e faca, Heitor dos Prazeres, Donga, Sinhô, João da Baiana e Pixinguinha, juntos, compuseram “Pelo Telefone” há mais de 100 anos.

Naquela época, os sambas eram escritos em grandes rodas, hoje, por conta da pandemia do coronavírus, o ritual de criação foi um tanto diferente. Júnior Fionda, compositor do samba-enredo da Acadêmicos de Vigário geral, conta que o processo pré pandemia era do tipo “quem sabe faz ao vivo”. “É aquela etapa de sentar todo mundo junto, um na frente do outro, estudado, cada um com a pesquisa e sua fonte de informação do enredo”.

No lugar dos encontros, o Whatsapp fez o papel de reunir todo o grupo. Não havia mais os abraços e a proximidade, mas o samba continuava vivo. “A pandemia mudou completamente a forma de fazer. Eu tive que compor em casa, recluso, me escondi num ambienta da casa, puxei um cavaquinho e comecei sozinho”, relembra Júnior. Com a canção em mente, o compositor conta que enviou a prévia do que seria a letra e a melodia do samba para o resto do grupo no Whatsapp. “Eles melhoraram: ‘por que a gente não coloca essa palavra? Por que não troca essa melodia por aquela?’. Todo mundo entendeu que o processo seria sacrificante, mas com a ajuda de todos dava pra ir mudando e construindo aos pouquinhos”.

E funcionou, eles mandaram o samba-enredo para avaliação da escola e na mesma hora foi aprovado. Não era da forma que eles gostariam, ainda mais para cariocas, habituados a encontros. “Eu ainda prefiro o calor humano, a troca, a alegria quando você canta uma coisa inédita pra outra pessoa e ela gosta muito”. Com sementes plantadas por grandes figuras das tantas pequenas áfricas cariocas, a Acadêmicos de Vigário geral abre alas aos reencontros. Se não nesse, quem sabe, no próximo carnaval.


Texto: Pedro Dias | Fotos: Marcello Santos