Da gema carioca à pedra onde nasceu o samba: conheça o bar Da Pedra

| 15/10/2021

Subir o Morro da Conceição, uma das pérolas mais bem guardadas do Rio de Janeiro, é no mínimo nostálgico. Entre ruelas e ladeiras, em um cenário que remete às antigas crônicas cariocas, o subúrbio reluz, sorri. É ali, nos pés do Morro onde se fez poesia, que nasce mais um fruto desse chão. Da Pedra, é um bar que pulsa no coração da cidade, do samba e do carioca: a Pedra do Sal



Inaugurado no último 12 de outubro, dia das crianças, o bar junta tudo que o subúrbio tem de melhor. Segundo Luiza Souza, a Musa das Panelas, como ela mesmo prefere ser chamada, abrir uma casa na região era um desejo antigo. A vontade foi realizada com o apoio de André Peterson, um velho amigo de faculdade e ex-proprietário do Bodega do Sal, bar que ocupava o imóvel contemplado em 2014 pelo edital Pró-Apac Sagas da Cdurp. “O Da Pedra, como a Pedra, é um lugar de acolhimento, resistência, luta e igualdade. Tem tudo a ver com a gente. Nós estamos num lugar chamado Pequena África, não dá pra ser diferente, não cabe ser diferente”, conta. Luiza ainda destaca que ela e os sócios, André Peterson e Leandro Amaral, escolheram a data de abertura da casa a dedo. “Sou nascida e criada em Brás de Pina, quando eu sento ali fora eu me sinto em casa. Eu olho pro lado e vejo as crianças escorregando na pedra, é totalmente mágico. Quem viveu isso se encanta”, relembra.
Com mesas ao ar livre, samba e cerveja gelada, o cardápio traz de volta a memória afetiva do trio e, consequentemente, de todo suburbano. “Costumo dizer que a gente tem história por ser feito do mesmo barro, por ser preto, por ter vindo de família humilde, ter sido criado em subúrbio. É coisa de família mesmo”. A ancestralidade africana, marca da região onde desembarcaram mais de 90% dos escravos trazidos para o Brasil, estará em quitutes como o “Pequena África”, espetinho de jiló envolvido no bacon com linguiça. Outras iguarias que prometem vir com tudo são os pastéis de rabada com agrião e os de jabá com jerimum, também conhecido como abóbora. Outra dica imperdível é o frango com quiabo salteado, acompanhado da famosa polenta de vó.
Um prato típico é aquele que consegue preservar e envolver saberes, são coisas que não se perdem com o tempo. O da Pedra segue o mesmo princípio: a comida é o principal passaporte para essa viagem cultural, mas não o único. As paredes do bar retratam e resgatam a cultura do local por meio de ícones que viveram ali e fizeram do samba o que ele é hoje. Figuras como Donga, João da Baiana, Tia Ciata e Pixinguinha são reverenciados. Fechando com a imagem de um Jesus Cristo negro. As ilustrações são assinadas por Eduardo Fernandes, o @bisthecookie.
O morro parado no tempo, rodeado de imagens e figuras ligadas à infância carioca, ativa a memória infantil. Descer a rua Jogo da Bola, virar à direita na Argemiro Bulcão e escorregar na Pedra do Sal alegra a criança interior e hoje dá no recém chegado Bar, que se depender de sua alma, já é um conhecido de outros carnavais.
Texto e fotos: Pedro Dias

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