Prefeitura cria circuito da herança africana

Obras, Social | 16/11/2011

Porto Maravilha inicia obra de restauração do Centro Cultural José Bonifácio, casarão histórico que integra pontos de interesse da memória afro-brasileira na cidade

A Prefeitura do Rio anunciou hoje, 16 de novembro, a criação do Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana e deu início às obras de restauro do Centro Cultural José Bonifácio, dentro do programa Porto Maravilha Cultural. O circuito, sob a coordenação da Subsecretaria de Patrimônio, é um conjunto de locais marcantes para a memória da cultura afro-brasileira que inclui o Cais do Valongo, os Jardins do Valongo, a Pedra do Sal, o Largo do Depósito e o Instituto Pretos Novos, além do Centro Cultural José Bonifácio.

Secretário municipal de Cultural, Emílio Kalil, fala sobre o Centro Cultural José Bonifácio e a sua importância para a Região Portuária e a cidade, no evento que marcou início das obras de restauro

A prefeitura criará um roteiro que destaca os marcos históricos da memória da África na cidade. Eles serão transformados em áreas de visitação com informações não só para turistas, mas para alunos de escolas municipais, privadas e visitantes de todo tipo, como explica o coordenador de Projetos e Fiscalização da Subsecretaria de Patrimônio da Prefeitura do Rio, Paulo Vidal. "Ao criar o circuito, o que se quer é informar de maneira única e organizada. Nenhum pedaço dessa história pode ser perdido", definiu.

O roteiro proposto inclui o Instituto Pretos Novos. O sítio arqueológico foi descoberto em 1996, quando moradores faziam sondagem de solo para obras

Diretor-executivo da Incubadora Afro-brasileira e membro do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro (Comdedine), Giovani Harvey afirmou que a descoberta "entre aspas" do Cais do Valongo não era objetivo central do projeto Porto Maravilha. Historiadores e arqueólogos sabiam que encontrariam vestígios desse período da história. Obras de reurbanização permitiram o resgate do sítio arqueológico. Harvey classificou a atitude do prefeito Eduardo Paes em assumir a transformação do Valongo em monumento aberto - reivindicação do Movimento Negro - uma ousadia com grande relevância para a memória da África. "Todas as vezes em que passava por aqui eu tinha o sentimento de vergonha por pisar na história de um País e de uma população. Se os postos de saída dos navios negreiros em Dakar e Cabo Verde são reconhecidos como Patrimônios da Humanidade,  o Cais do Valongo certamente preenche todas as condições para ser reconhecido (pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - Unesco)", afirmou.

Emílio Kalil, secretário municipal de Cultura, afirmou que desde a primeira vez em que entrou no Centro Cultural José Bonifácio, há mais de um ano, percebeu a importância da restauração do prédio histórico. "Hoje, o Porto Maravilha Cultural nos dá a chance de iniciar essa obra de extrema importância. O envolvimento da comunidade, das associações e instituições da área, é essencial para a reconstrução desse espaço. Sozinho, esse palacete é apenas um prédio. A cultura de um povo não vale nada sem a sua memória preservada", destacou o secretário, que representou o prefeito Eduardo Paes na cerimônia.

Para o secretário municipal de Obras, Alexandre Pinto, a transformação do Cais do Valongo em museu a céu aberto é um resgate histórico. "Esse cais já foi escavado em outras oportunidades. Infelizmente, quem tinha o poder de decisão não soube dar valor à importância desse grande sitio arqueológico. Queria destacar o trabalho das equipes que estão aqui empenhados nas escavações e na redescoberta de riquezas de conteúdo histórico e que agora serão conhecidas por todos", ressaltou.

Eloi Ferreira de Araujo, presidente da Fundação Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura, definiu a criação do circuito e o início das obras do Centro Cultural José Bonifácio como atividades que complementam o combate ao racismo e à discriminação. "A Fundação Palmares quer ser parceira na construção desse marco da história brasileira e mundial".

Restauração do Centro Cultural José Bonifácio

O palacete histórico da Gamboa, na Rua Pedro Ernesto, 80, foi inaugurado em 1877 por Dom Pedro II em homenagem ao patriarca da Independência como o primeiro colégio público da América do Sul. Hoje, também conhecido como Centro de Memória e Documentação Brasileira, é sede do Centro de Referência da Cultura Afro-brasileira, único no gênero na América Latina. A restauração receberá investimento de R$ 3,205 milhões do Programa Porto Maravilha Cultural, que destina 3% dos recursos da venda dos Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepacs) à recuperação do patrimônio histórico, artístico e cultural da Região Portuária. A Terreng, que venceu a licitação lançada pela Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio (Cdurp), entregará o prédio restaurado no prazo de 300 dias.  Os trabalhos serão orientados pela Subsecretaria de Patrimônio.

Quando reaberto, o Centro Cultural José Bonifácio terá suas atividades administradas pela Secretaria Municipal de Cultura. Após o restauro, o José Bonifácio vai intensificar sua vocação como centro de referência da cultura afro-brasileira. A Secretaria de Cultura vai conduzir a elaboração do novo conteúdo do centro cultural com a participação do Comdedine (o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro) e da comunidade, representada pela Amaga (Associação dos Moradores e Amigos do Bairro da Gamboa).  O José Bonifácio foi escolhido pela importância histórica, cultural e social. Equipado com biblioteca, sala de vídeo e espaço para concertos, também oferece cursos, feira de livros, exibição de filmes e vídeos, oficinas de arte, seminários, exposições e espetáculos teatrais e musicais, além de estabelecer intercâmbio com instituições similares do País e do exterior. Em suas instalações funcionam a Galeria de Arte Heitor dos Prazeres; o Teatro Ruth de Souza, com capacidade para 150 espectadores; e o espaço Cine Vídeo Grande Othelo, com 60 lugares. As atividades foram suspensas para o processo de restauro.

A importância do Cais do Valongo

Um dos pontos de especial interesse no Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, o Cais do Valongo tem importância social considerada extraordinária. Desde fevereiro, técnicos da Secretaria Municipal de Obras dividem o canteiro da Avenida Barão de Tefé com uma equipe de historiadores e arqueólogos supervisionados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A escavação e a redescoberta do Cais do Valongo, em meio às obras de requalificação da Região Portuária, aconteceram no mesmo ano em que este ponto de chegada dos escravos completa 200 anos. “O sítio arqueológico tem uma importância social extraordinária para a autoestima da comunidade afrodescendente e para a construção de sua identidade. É uma feliz coincidência que o Cais do Valongo tenha sido trazido de volta precisamente 200 anos após o início de sua construção. A data é emblemática também porque coincide com o ano internacional contra a discriminação racial”, avalia a arqueóloga e doutora em Ciências Tania Andrade Lima, do Departamento de Antropologia do Museu Nacional, responsável pela equipe que trabalha no local. A pesquisa chegou à fase final de escavação e passará por trabalho de curadoria e análise de material. Na área de 2 mil metros quadrados, já foram encontrados objetos da vida cotidiana das classes dominantes do império e dos negros escravizados. As peças são armazenadas no Museu Nacional e vão compor um memorial com os achados mais significativos.

A escavação e a redescoberta do Cais do Valongo, em meio às obras de requalificação da Região Portuária, aconteceram no mesmo ano em que este ponto de chegada dos escravos completa 200 anos

Em 4 de setembro de 1843, desembarcou no Rio de Janeiro a princesa da casa reinante de Nápoles, Thereza Cristina de Bourbon, para se casar com Dom Pedro II. Para a chegada da futura imperatriz, o imperador ordenou as obras de embelezamento e melhoramento do Cais do Valongo, que ganhou um pavilhão de luxo e passou a se chamar de Cais da Imperatriz. Para marcar a chegada de Thereza Cristina, a Câmara Municipal encarregou a Academia de Belas Artes de erguer um monumento-chafariz em cantaria na então Praça Municipal, hoje conhecida como Praça Jornal do Comércio.

Outros pontos de destaque do Circuito

Pedra do Sal -  No local, o sal era descarregado por africanos escravizados que trabalhavam como carregadores nos cais de atracação e trapiches. Nos degraus escavados na rocha foram fundados os primeiros ranchos carnavalescos, afoxés e pontos ritualísticos na segunda metade do século XIX. Após o trabalho, sambistas estivadores se reuniam para as rodas de samba nas casas das tias baianas.

Jardim do Valongo -  A construção do Jardim Suspenso do Valongo foi parte do plano de remodelação e embelezamento da cidade pelo prefeito Pereira Passos, projetado pelo arquiteto Luis Rey, inaugurado em 1906. Ali foram acolhidas quatro estátuas de mármore carrara- Marte, Ceres, Vênus e Juno- retiradas do Cais da Imperatriz. Hoje, elas estão no Palácio da Cidade.

Largo do Depósito -  Por volta de 1770, o Marques de Lavradio transferiu o mercado de escravos da Praça XV para a região do Valongo. O Largo do Depósito, hoje Praça dos Estivadores, era onde se concentravam os armazéns dos “negociantes de grosso trato” que controlavam o mercado negreiro. Em 1831, foi extinto o depósito de escravos na rua do Valongo.

Instituto Pretos Novos -  A transferência do mercado de escravos da Praça XV para o Valongo implicou a mudança do Cemitério dos Pretos Novos do Largo de Santa Rita para o Caminho da Gamboa- hoje, a Rua Pedro Ernesto, 36, onde funciona o Instituto Pretos Novos . O sítio arqueológico foi descoberto em 1996, quando moradores faziam sondagem de solo para obras. Arqueólogos da prefeitura coletaram vários tipos de vestígios e milhares de fragmentos de ossos humanos misturados.

Obras do Porto Maravilha

A Secretaria Municipal de Obras (SMO) avançou na implantação da rede de drenagem da Barão de Tefé. Manilhas do início do século passado que davam forma à galeria de águas pluviais da avenida foram em parte substituídas por outra imensa estrutura de 3,60 metros de largura por 1,80 metro de altura. A nova galeria é 12 vezes maior que a anterior. O trecho finalizado vai da esquina da Rua Sacadura Cabral à Avenida Rodrigues Alves.

A SMO trabalha para que a galeria cruze a Rodrigues Alves, chegando até o mar. O trabalho vai durar 90 dias. No total, 29 ruas da Saúde e Gamboa serão reurbanizadas pela SMO, na fase 1 de revitalização da Região Portuária -  11 na parte baixa dos bairros da Saúde e Gamboa e 18 no Morro da Conceição, em investimento de R$ 139 milhões. O pacote de intervenções inclui pavimentação, implantação de calçadas, sistema de drenagem e redes de abastecimento de água e coletora de esgoto. A previsão é que as obras sejam concluídas em 2012.

Sobre o programa Porto Maravilha Cultural

A Região Portuária guarda construções que marcam o início da colonização até os dias de hoje. Ao transformar a área, a Prefeitura do Rio tem compromisso de preservar sua identidade. A Lei Complementar 101/2009, que criou a Operação Urbana Porto Maravilha, definiu que o Poder Público deve promover ações que integrem e promovam o desenvolvimento social e econômico da população local e estabelece que o patrimônio deve ser recuperado e valorizado.

A Cdurp, responsável pela requalificação da Região Portuária, criou os programas Porto Maravilha Cidadão e Porto Maravilha Cultural para articular ações e parcerias nesse sentido. A legislação determina que 3% da arrecadação dos Cepacs sejam aplicados em projetos de recuperação e valorização dos patrimônios histórico e cultural.

Fotos: AF Rodrigues

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