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Circuito Histórico e Arqueológico da
Celebração da Herança Africana

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30
JUN
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Cais do Valongo e da Imperatriz

O Cais do Valongo é um sítio arqueológico dos vestígios do antigo cais de pedra construído pela Intendência Geral de Polícia da Corte do Rio de Janeiro para o desembarque no Rio de Janeiro de africanos escravizados a partir de 1811. Em julho de 2017 foi reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O objetivo do cais era retirar da Rua Direita, atual Primeiro de Março, o desembarque e o comércio de africanos escravizados. Assim, o Valongo se tornou a principal porta de entrada do País. Os escravos acabavam nas plantações de café, fumo e açúcar do interior e de outras regiões do Brasil. Os que ficavam geralmente terminavam como escravos domésticos ou usados como força de trabalho nas obras públicas. A vinda da família real portuguesa para o Brasil e a intensificação da cafeicultura ampliaram consideravelmente o tráfico.

Em 1831, com a proibição do tráfico transatlântico por pressão da Inglaterra, o Valongo foi oficialmente fechado. Porém a ordem foi solenemente ignorada e daí surge a expressão irônica “para inglês ver”. Entre a construção do cais e a proibição do tráfico, estima-se que ingressaram no País entre 500 mil e um milhão de escravos de diversas nações africanas, em sua maioria, do Congo e Angola. O Rio de Janeiro, em quase quatro séculos de escravidão, recebeu sozinha cerca de 20% de todos os africanos escravizados que chegaram vivos às Américas. Isso faz da cidade e do Cais do Valongo referência do que foi a maior transferência forçada de população na história da humanidade.

Ao longo dos anos, o Cais sofreu sucessivas transformações. Uma das principais foi em 1843, quando foi remodelado para receber a Princesa das Duas Sicílias, Teresa Cristina Maria de Bourbon, noiva do Imperador D. Pedro II, passando a se chamar Cais da Imperatriz. Com as reformas urbanísticas da cidade no início do século XX, o local foi aterrado em 1911.

CIRCUITO DA HERANÇA AFRICANA
Um século depois, em 2011, as obras de reurbanização do Porto Maravilha permitiram o resgate do sítio arqueológico. Em 2012, a Prefeitura do Rio de Janeiro acatou a sugestão do Movimento em Defesa do Direito do Negro e transformou o espaço em monumento preservado e aberto à visitação pública. O Cais do Valongo passou a integrar o 
Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que estabelece marcos da cultura afro-brasileira na Região Portuária, ao lado do Jardim Suspenso do Valongo, Largo do Depósito, Pedra do Sal, Centro Cultural José Bonifácio e Cemitério dos Pretos Novos.


ACHADOS ARQUEOLÓGICOS
A coleção arqueológica coletada no local é considerada excepcional pela quantidade e concentração de materiais associados à Diáspora Africana. São aproximadamente 1.200.000 peças que dão acesso aos costumes, vida cotidiana, simbolismo religioso e à resistência dos africanos escravizados ao sistema que lhes era imposto. Foram encontrados objetos como partes de calçados, botões feitos com ossos, colares, amuletos, anéis e pulseiras em piaçava de extrema delicadeza, jogos de búzios e outras peças usadas em rituais religiosos. Entre os achados raros, há uma caixinha de joias esculpida com desenhos de uma caravela e de figuras geométricas no tampão. A coleção ainda se encontra em processo de análise pela quantidade e complexidade dos materiais encontrados. Todo o processo de identificação e análise prévia, conservação e guarda foi previamente autorizado e vem sendo acompanhado pelo Iphan.



Desde 2012, um ritual se repete todos os anos nas pedras do Cais durante o primeiro sábado de julho. Sacerdotisas de religiões de matriz africana - mães de santo, como são conhecidas – conduzem um ritual de limpeza, purificação e homenagem aos espíritos dos ancestrais que passaram como cativos pelo local. Cantos religiosos, água de cheiro, flores e votos de amor e paz ocupam o Cais do Valongo nessa ocasião.
 
VISITAS GUIADAS


Foto: Bruno Bartholini

Cariocas e turistas podem percorrer os seis pontos do Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana em visitas guiadas gratuitas. Com apoio da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp) por meio do programa Porto Maravilha Cultural, o Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos (IPN) abriu inscrição para 40 grupos ao longo de 2016. O percurso dura em média duas horas e meia com roteiro que parte do Largo de São Francisco da Prainha, passa pela Pedra do Sal, sobe o Morro da Conceição e chega ao Jardim Suspenso do Valongo de onde se vê o Largo do Depósito de cima. Na Praça Jornal do Comércio, o grupo visita o Cais do Valongo. Na Rua Pedro Ernesto, os dois últimos pontos são Centro Cultural José Bonifácio (CCJB) e Cemitério dos Pretos Novos. Inscrições

DOCUMENTOS SOBRE O CAIS DO VALONGO
 
Decreto municipal que cria o Circuito da Herança Africana 
 
Dossiê candidatura a Patrimônio da Humanidade

ESTUDOS E ARTIGOS
 
Valongo, Cais dos Escravos: memória da diáspora e modernização portuária na cidade do Rio de Janeiro, 1668 – 1911
Carlos Eugênio Líbano Soares | Museu Nacional - UFRJ | 2013

Cemitério dos Pretos Novos, Rio de Janeiro, Século XIX: uma tentativa de delimitação espacial
Reinaldo Bernardes Tavares | Universidade Federal do Rio de Janeiro | Rio de Janeiro 2012
 
Porto Maravilha: Onde passado e futuro se encontram
Artigo de Alberto Silva, ex-presidente da Cdurp | 2015

O cais, o píer e o amanhã
Artigo de Alberto Silva, ex-presidente da Cdurp | 2016
30
JUN
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Pedra do Sal

Considerada berço do samba carioca, a Pedra do Sal, ao fim da Rua Argemiro Bulcão, ainda é ponto de encontro de sambistas da cidade. Tem este nome porque o sal era descarregado na rocha por africanos escravizados no século XVII. Os degraus foram esculpidos para facilitar o trabalho de subir na pedra lisa. A partir da segunda metade do século XIX, estivadores se reuniam no local para cantar e dançar. Na Pedra do Sal, surgiram os primeiros ranchos carnavalescos, afoxés e rodas de samba. Por ali passaram grandes nomes da música, como João da Baiana, Pixinguinha e Donga. Em 20 de novembro de 1984, dia da Consciência Negra, foi tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac).

30
JUN
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Jardim Suspenso do Valongo

A antiga Rua do Valongo, que ligava o Cais do Valongo ao Largo do Depósito, abrigava lojas que vendiam escravos e artigos relacionados à prática da escravidão. No eixo formado por este caminho, os escravos recém-chegados eram acomodados em barracões conhecidos como casas de engorda, onde literalmente ganhavam peso, de modo a valorizar seu preço no mercado. Nesta área também havia mercados onde os africanos escravizados eram expostos aos potenciais compradores. No início do século XX, por ocasião do alargamento da via, foram construídos o Jardim Suspenso do Valongo, a Casa da Guarda e o Mictório Público. Parte do plano de remodelação e embelezamento da cidade pelo Prefeito Pereira Passos, o parque foi projetado pelo arquiteto-paisagista Luis Rey e inaugurado em 1906. Escavação arqueológica encontrou vasto acervo que remete à "tralha doméstica" da época, revelando aspectos da vida cotidiana, costumes e mentalidade dos habitantes do Morro da Conceição.

 

30
JUN
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Largo do Depósito

Em 1779, quando o Marquês de Lavradio determinou a transferência do mercado de escravos da Praça XV para a região do Valongo, o Largo do Depósito, hoje Praça dos Estivadores, concentrava armazéns de "negociantes de grosso trato" que controlavam o negócio. A mudança introduziu uma série de novas atividades na área, como a instalação de trapiches, manufaturas e armazéns. O mercado na Rua do Valongo foi extinto oficialmente em 1831.

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JUN
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Cemitério dos Pretos Novos

A transferência do mercado de escravos da região da Rua Primeiro de Março (antiga Rua Direita) para a do Valongo implicou mudança do Cemitério dos Pretos Novos do Largo de Santa Rita para o Caminho da Gamboa - hoje a Rua Pedro Ernesto 32, endereço do Instituto Pretos Novos (IPN). Pretos Novos eram os cativos recém-chegados ao Brasil. Muitas vezes, não resistiam aos maus tratos da viagem desde a África e morriam pouco depois de desembarcar. O sítio arqueológico foi descoberto em 1996, quando moradores reformavam a casa. Arqueólogos identificaram milhares de fragmentos de restos mortais de jovens, homens, mulheres e crianças, africanos recém-chegados.

Considerado o maior cemitério de escravos das Américas, estima-se que tenham sido enterrados de 20 a 30 mil pessoas, embora nos registros oficiais esses números sejam menores, 6.122 entre 1824 e 1830. Seus corpos foram jogados em valas e queimados. A área servia também como depósito de lixo, o que revela o tratamento indigno aos africanos escravizados. Além de ossos humanos, havia também pertences dos pretos novos, como restos de alimentos e objetos de uso cotidiano descartados pela população. A análise do sítio constatou que a maior parte dos ossos pertence a crianças e adolescentes. Hoje a casa funciona como centro cultural para o resgate da história da cultura africana e oferece cursos e oficinas, além de uma biblioteca sobre a temática negra.

O IPN fica aberto de terça a sexta-feira, das 13h às 19h. Aos sábados, das 11h às 14h. Segundas-feiras e domingos permanece fechados. E aos feriados, é preciso consultar a disponibilidade. Mais informações pelo telefone (21) 2516-7089. O Instituto Pretos Novos oferece visitas guiadas pelo circuito.

30
JUN
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Centro Cultural José Bonifácio

Inaugurado em 14 de março de 1877, o Centro Cultural José Bonifácio foi o primeiro colégio público da América Latina. Construído por ordem de D. Pedro II para a educação da comunidade carente da Região Portuária, fazia parte do conjunto das "escolas do imperador". Desativado em 1977, deu lugar à Biblioteca Popular Municipal da Gamboa. O palacete da Rua Pedro Ernesto 80, na Gamboa, é um centro de referência da cultura afro-brasileira.