Cais do Valongo é Patrimônio da Humanidade

Social, Cultural | 09/07/2017


Desenterrado em 2011 durante obras do Porto Maravilha, Cais do Valongo é reconhecido Patrimônio da Humanidade pela Unesco / Foto: Bruno Bartholini

Maior porto escravista das Américas, por onde desembarcaram mais de 1 milhão de africanos escravizados, o Cais do Valongo foi reconhecido como Patrimônio da Humanidade da Unesco no domingo, 9 de julho de 2017. Desenterrado em 2011 durante as obras de reurbanização do Porto Maravilha, a recuperação e exposição do sítio arqueológico permite a visitação do local como monumento a céu aberto, no coração da Região Portuária, na Avenida Barão de Tefé. Na segunda-feira, 10 de julho, o Cais recebeu comemoração ao som do Afoxé Filhos de Ghandi.
A Prefeitura do Rio e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) entregaram o dossiê de candidatura a patrimônio em janeiro de 2016 e aguardavam a reunião do comitê da Unesco, que se reuniu na última semana em Cracóvia, na Polônia.

CONSTRUÍDO PARA RETIRAR O PORTO ESCRAVISTA DA PRAÇA XV

O Cais do Valongo é um sítio arqueológico dos vestígios do antigo cais de pedra construído pela Intendência Geral de Polícia da Corte do Rio de Janeiro para o desembarque no Rio de Janeiro de africanos escravizados a partir de 1811. O objetivo era retirar da Rua Direita, atual Primeiro de Março, o desembarque e o comércio de africanos escravizados. Assim, o Valongo se tornou a principal porta de entrada do País. Os escravos acabavam nas plantações de café, fumo e açúcar do interior e de outras regiões do Brasil. Os que ficavam geralmente terminavam como escravos domésticos ou usados como força de trabalho nas obras públicas. A vinda da família real portuguesa para o Brasil e a intensificação da cafeicultura ampliaram consideravelmente o tráfico.
Em 1831, com a proibição do tráfico transatlântico por pressão da Inglaterra, o Valongo foi oficialmente fechado. Porém a ordem foi solenemente ignorada e daí surge a expressão irônica “para inglês ver”. Entre a construção do cais e a proibição do tráfico, estima-se que ingressaram no País entre 500 mil e um milhão de escravos de diversas nações africanas, em sua maioria, do Congo e Angola. O Rio de Janeiro, em quase quatro séculos de escravidão, recebeu sozinha cerca de 20% de todos os africanos escravizados que chegaram vivos às Américas. Isso faz da cidade e do Cais do Valongo referência do que foi a maior transferência forçada de população na história da humanidade.
Ao longo dos anos, o Cais sofreu sucessivas transformações. Uma das principais foi em 1843, quando foi remodelado para receber a Princesa das Duas Sicílias, Teresa Cristina Maria de Bourbon, noiva do Imperador D. Pedro II, passando a se chamar Cais da Imperatriz. Com as reformas urbanísticas da cidade no início do século XX, o local foi aterrado em 1911. Um século depois, em 2011, as obras de reurbanização do Porto Maravilha permitiram o resgate do sítio arqueológico. Em 2012, a Prefeitura do Rio de Janeiro acatou a sugestão do Movimento em Defesa do Direito do Negro e transformou o espaço em monumento preservado e aberto à visitação pública.

ACHADOS ARQUEOLÓGICOS
A coleção arqueológica coletada no local é considerada excepcional pela quantidade e concentração de materiais associados à Diáspora Africana. As peças dão acesso aos costumes, vida cotidiana, simbolismo religioso e à resistência dos africanos escravizados ao sistema que lhes era imposto. Foram encontrados objetos como partes de calçados, botões feitos com ossos, colares, amuletos, anéis e pulseiras em piaçava de extrema delicadeza, jogos de búzios e outras peças usadas em rituais religiosos. Entre os achados raros, há uma caixinha de joias esculpida com desenhos de uma caravela e de figuras geométricas no tampão. A coleção foi identificada por equipe de arqueólogos e está armazenada para ter amostra exposta no futuro museu da liberdade e escravidão, em idealização pela Prefeitura do Rio em parceria com representantes do movimento negro.


Peças encontradas dão acesso aos costumes, vida cotidiana, simbolismo religioso e à resistência dos africanos escravizados ao sistema que lhes era impostos / Foto Mariana Aimeé

Desde 2012, um ritual se repete todos os anos nas pedras do Cais durante o primeiro sábado de julho. Sacerdotisas de religiões de matriz africana - mães de santo, como são conhecidas – conduzem um ritual de limpeza, purificação e homenagem aos espíritos dos ancestrais que passaram como cativos pelo local. Cantos religiosos, água de cheiro, flores e votos de amor e paz ocupam o Cais do Valongo nessa ocasião.

CANDIDATURA A PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE
O sítio do Cais do Valongo corresponde à área da Praça Jornal do Comércio e está delimitado pela Avenida Barão de Tefé, Rua Sacadura Cabral e pela lateral do Hospital dos Servidores do Estado. No dia 20 de novembro de 2013 (Consciência Negra), o Cais do Valongo foi alçado a patrimônio cultural da cidade por meio do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH). Representantes da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) incluíram o sítio arqueológico como parte da Rota dos Escravos.
O reconhecimento da Unesco reforçou ainda mais a intenção da cidade e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) de lançar a candidatura do Cais do Valongo a Patrimônio da Humanidade em janeiro de 2014. O dossiê de candidatura foi aprovado em março de 2016, e após as análises técnicas do conselho da Unesco, a candidatura virou título em 9 julho de 2017.


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