Cais do Valongo recebe obras de consolidação e conservação

Obras, Social, Cultural | 20/05/2019

Na primeira fase, local passará por limpeza, pavimentação de calçamento e reforço estrutural; depois será iluminado e sinalizado


Ali desembarcaram quase 1 milhão de negros trazidos da África, no maior movimento de migração forçada da humanidade. O Cais do Valongo, considerado um dos sítios de memória da escravidão mais importantes do mundo, recebe a partir de hoje, 20 de maio, obras de consolidação, conservação e limpeza. As intervenções seguem recomendações da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) que em 9 de julho de 2017 concedeu ao Valongo, no Porto Maravilha, o status de Patrimônio Mundial.
O projeto de consolidação foi elaborado a partir de estudos da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (Cdurp), com gestão do Instituto da História e da Cultura Afro-Brasileira, ambos órgãos da Prefeitura do Rio, e supervisão da autarquia federal Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e parceria com Instituto de Desenvolvimento e Gestão (IDG).
Orçada em R$ 2 milhões, a primeira etapa tem previsão de duração de seis meses. Os recursos são provenientes do Fundo dos Embaixadores dos Estados Unidos para a Preservação Cultural. Na segunda fase, com investimentos de empresas privadas, serão instaladas nova iluminação, câmeras de monitoramento e o guarda-corpo. Além disso, está prevista a instalação de novas placas indicativas e interpretativas sobre a história e importância do Cais do Valongo, assim como totens. As intervenções começarão no segundo semestre de 2019.
A fase inicial das obras inclui limpeza do sítio histórico, com remoção  de grafites, vegetação daninha e colônias biológicas; tratamento dos elementos metálicos deteriorados pela decomposição, contenção da erosão nos cortes íngremes e  do efeito das chuvas sobre o  solo e consolidação da pavimentação do calçamento e das pedras. A intervenção também promove reforço estrutural para o muro que tem a função de conter a terra, instala canaletas para escoamento de água e execução da mureta que irá receber o novo guarda-corpo. Além disso, o muro da via de serviço do Hospital dos Servidores será demolido, permitindo caminhada completa ao redor do monumento. Para impedir a passagem de veículos na área, serão instalados frades.
Museu da cultura afro-brasileira
Diretora do Instituto da História e da Cultura Afro-Brasileira, Nilcemar Nogueira explica que as obras de consolidação do Cais do Valongo fazem parte de um projeto maior, que envolve a criação de um museu a céu aberto e de centros de capacitação, interpretação, discussão e disseminação da cultura afro-brasileira, integrando a região conhecida como Pequena África – que engloba ainda o Quilombo da Pedra do Sal, Praça da Harmonia, Cemitério dos Pretos Novos, entre outros.
“Não será algo centrado apenas em objetos. Será uma atração experiencial, ou seja, por meio de imagens, alegorias, frases e instalações o visitante vai sentir se impactado e ter consciência do que foi a escravidão, e de como o racismo, a violência e a desigualdade persistem até os dias de hoje”, afirma ela. Batizado de Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), os recursos para o projeto pioneiro estão em fase de captação. Quando o sítio recebeu o título de Patrimônio Mundial, um dos compromissos da cidade foi justamente promover e aprofundar o conhecimento sobre o Cais do Valongo - e o que ele representa para a história do Brasil e do mundo.
“O sítio histórico precisa estar inserido dentro de uma narrativa. Após conhecer o Valongo, o visitante irá aos centros de interpretação e referência, onde entenderá o contexto histórico da região e a cultura de resistência dos negros, o que significa o Cais do Valongo e o pós-abolição. Funcionará com um complexo interligado de vivência, pesquisa e economia solidária, criado a partir de discussões da própria população negra”, diz Nilcemar.

Sobre o Cais do Valongo
O Atlas do Comércio Transatlântico de Escravos aponta que 4,68 milhões de africanos vieram para o Brasil como escravos, quase metade dos negros para as Américas. Destes, mais de 2 milhões desembarcaram no Rio de Janeiro. Os cálculos são de que o a região do Valongo recebeu quase um milhão de africanos.
A história do Valongo começa antes mesmo da construção do cais. Até meados da década de 1770, o comércio de escravos era feito entre a Praia do Peixe, atual Praça XV, e Rua Direita (hoje Rua Primeiro de Março). Em 1774, para esconder o brutal negócio das vistas da população, o segundo Marquês do Lavradio determinou que o mercado de escravos fosse transferido para a região do Valongo. 
Inicialmente, os africanos desciam na alfândega e iam de bote ao Valongo, saltando na praia. Em 1811, o Cais do Valongo foi construído entre as atuais ruas Coelho e Castro e Sacadura Cabral. Ele operou até 1831, ano da proibição do tráfico transatlântico de escravos. Em 1843, o atracadouro passou a ser chamado Cais da Imperatriz, sendo reformado para receber a futura esposa de Dom Pedro II, a princesa Teresa Cristina de Bourdon-Duas Sicílias. A região onde ficava o Valongo, porém, continuou a ser ocupada por negros escravizados e libertos, ganhando o nome de Pequena África. Partes do Cais do Valongo e da Imperatriz foram redescobertos em 2011, durante as obras do Porto Maravilha.