Rei de Gana visita Circuito da Herança Africana na Região Portuária

Cultural | 13/10/2017

Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o Cais do Valongo, maior ponto de desembarque do tráfico transatlântico – entre os séculos 16 e 19 –, recebeu a visita do rei Ashanti de Gana, Otumfuo Osei Tutu II. Durante visita ao Brasil, o rei visitou Salvador, Brasília e fez questão de conhecer um pouco mais sobre a herança africana na cidade do Rio de Janeiro.
Em torno do cais se desenvolveu um complexo escravagista com armazéns, pontos de venda de africanos escravizados, mercados, casas comerciais. Apesar deste vestígio recordar atrocidades do tráfico transatlântico, ele também marca a presença da história e cultura africanas, que construíram e enriqueceram a sociedade brasileira. “Nós na África estamos orgulhosos de ter irmãos e irmãs aqui também. Não é mais o tempo de vocês se sentirem sozinhos. Vocês devem se sentir conectados, sempre. Apenas o Atlântico nos separa. Eu disse a eles que estou certo de que ficaremos juntos novamente”, afirmou o rei.

Rei trocou informações com  representantes de religiões de matriz africana e ativistas do Movimento em Defesa do Direito do Negro

Descendente direto do fundador do Império Ashanti e coroado em 1999, Otumfuo Osei Tutu II é o 16ª rei Ashanti. O Império Ashanti foi fundado em 1670. Kumasi, a atual capital Ashanti, no centro de Gana, foi também a capital histórica do Reino. Rica em minerais, a região é responsável por grande parte da produção doméstica e das exportações de Gana, país com cerca de 25 milhões de habitantes governado pelo presidente Nana Akufo Addo, que tomou posse em janeiro deste ano.
O monarca africano se encontrou com lideranças do movimento negro no Centro Cultural Municipal José Bonifácio, na Gamboa, e com representantes do grupo de trabalho do Museu da Escravidão e da Liberdade (nome provisório), em fase de criação pela Secretaria Municipal de Cultura. “É importante um museu que testemunhe a emancipação do negro e a dignidade da história do negro", afirmou, após assistir a uma apresentação do Afoxé Filhos de Gandhi. O Rei dos Ashanti percorreu a pé o Circuito da Herança Africana, visitando locais como o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos e a Pedra do Sal, símbolos do patrimônio imaterial africano na cidade, encerrando seu roteiro no Museu do Amanhã.
Década Internacional de Afrodescendentes da ONU
Existem aproximadamente 200 milhões de pessoas vivendo nas Américas que se identificam como afrodescendentes. Muitos mais vivem em outros lugares do mundo, fora do continente africano. Seja como descendentes das vítimas do tráfico transatlântico de escravos ou como migrantes mais recentemente, estas pessoas constituem alguns dos grupos mais pobres e marginalizados. Estudos e pesquisas de órgãos nacionais e internacionais demonstram que pessoas afrodescendentes ainda têm acesso limitado a educação de qualidade, serviços de saúde, moradia e segurança. Nesse contexto, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o período entre 2015 e 2024 como a Década Internacional de Afrodescendentes. A resolução cita a necessidade de reforçar a cooperação nacional, regional e internacional em relação ao pleno aproveitamento dos direitos econômicos, sociais, culturais, civis e políticos de pessoas de afrodescendentes, bem como sua participação plena e igualitária em todos os aspectos da sociedade.
Saiba mais sobre a Década em decada-afro-onu.org.

Cais do Valongo - Patrimônio da Humanidade

O Cais do Valongo é um sítio arqueológico dos vestígios do antigo cais de pedra construído pela Intendência Geral de Polícia da Corte do Rio de Janeiro para o desembarque no Rio de Janeiro de africanos escravizados a partir de 1811. Em julho de 2017 foi reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O objetivo do cais era retirar da Rua Direita, atual Primeiro de Março, o desembarque e o comércio de africanos escravizados. Assim, o Valongo se tornou a principal porta de entrada do País. Os escravos acabavam nas plantações de café, fumo e açúcar do interior e de outras regiões do Brasil. Os que ficavam geralmente terminavam como escravos domésticos ou usados como força de trabalho nas obras públicas. A vinda da família real portuguesa para o Brasil e a intensificação da cafeicultura ampliaram consideravelmente o tráfico.

Em 1831, com a proibição do tráfico transatlântico por pressão da Inglaterra, o Valongo foi oficialmente fechado. Porém a ordem foi solenemente ignorada e daí surge a expressão irônica “para inglês ver”. Entre a construção do cais e a proibição do tráfico, estima-se que ingressaram no País entre 500 mil e um milhão de escravos de diversas nações africanas, em sua maioria, do Congo e Angola. O Rio de Janeiro, em quase quatro séculos de escravidão, recebeu sozinha cerca de 20% de todos os africanos escravizados que chegaram vivos às Américas. Isso faz da cidade e do Cais do Valongo referência do que foi a maior transferência forçada de população na história da humanidade.

Ao longo dos anos, o Cais sofreu sucessivas transformações. Uma das principais foi em 1843, quando foi remodelado para receber a Princesa das Duas Sicílias, Teresa Cristina Maria de Bourbon, noiva do Imperador D. Pedro II, passando a se chamar Cais da Imperatriz. Com as reformas urbanísticas da cidade no início do século XX, o local foi aterrado em 1911.

Circuito da Herança Africana
Um século depois, em 2011, as obras de reurbanização do Porto Maravilha permitiram o resgate do sítio arqueológico. Em 2012, a Prefeitura do Rio de Janeiro acatou a sugestão do Movimento em Defesa do Direito do Negro e transformou o espaço em monumento preservado e aberto à visitação pública. O Cais do Valongo passou a integrar o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que estabelece marcos da cultura afro-brasileira na Região Portuária, ao lado do Jardim Suspenso do Valongo, Largo do Depósito, Pedra do Sal, Centro Cultural José Bonifácio e Cemitério dos Pretos Novos.

Saiba mais

Com texto e informações do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio) e do Portal da Prefeitura do Rio
Fotos: Secretaria Municipal de Cultura