Em memória dos Pretos Novos

Obras, Cultural | 09/06/2012

Antes chamada de Rua da Harmonia, a atual Pedro Ernesto, na Gamboa, Região Portuária, era conhecida no século XIX como "caminho do cemitério". Lá eram jogados os corpos de negros recém-chegados à colônia, mortos na viagem de navio negreiro, por doenças adquiridas durante o trajeto ou maus tratos nos alojamentos. A história do casal Ana Maria de La Merced e Petrúcio Guimarães começa neste período. Eles compraram uma casa na Pedro Ernesto e, ao fazer uma reforma em 1996, descobriram que moravam sobre o antigo cemitério.

Mobilizados pela importância da descoberta, criaram o Instituto dos Pretos Novos (IPN), que tem como objetivo pesquisar e preservar a história e cultura afro-brasileira. Dezesseis anos depois, comemoram a instalação de pirâmides de vidro para proteger os achados arqueológicos. A inauguração será na quarta-feira, dia 12 de setembro, às 17h. Na mesma data, abrem a Galeria Pretos Novos, com a exposição "Nova Arqueologia", que tem curadoria de Marco Antônio Teobaldo.

Em entrevista ao Blog Porto Maravilha, Ana Maria de La Merced, presidente do IPN, conta como foi esse encontro com o passado e fala sobre o evento de quarta-feira.

Como foi a descoberta dos ossos?

Eu e meu marido já morávamos nesta região. Compramos o imóvel em 1990 e nos mudamos para cá. A casa era bem antiga e precisava de reformas estruturais. Em 1996, iniciamos obras para uma nova laje. Ao cavar, encontramos os ossos. Ficamos assustados. À época, minhas filhas eram adolescentes e não sabíamos o que fazer. Primeiro achamos que haviam enterrado uma pessoa no quintal. Como já conhecíamos a história da Região Portuária, do Cais do Valongo, do Lazareto e do Cemitério, à medida que apareciam outros ossos, percebemos que este poderia ser o tal cemitério. Pedimos ajuda ao diretor do Centro Cultural José Bonifácio, que confirmou nossa desconfiança. Mas havia uma suspeita de que o cemitério ficava do outro lado da rua e não aqui. Avisamos à prefeitura e, na semana seguinte, recebemos visita de uma equipe do Patrimônio, com um grupo de arqueólogos que legitimou a descoberta histórica arqueológica de grande importância.

Ana Maria de La Merced, presidente do Instituto Pretos Novos

Vocês tinham algum conhecimento sobre o Cemitério dos Pretos Novos?

Não, absolutamente nada. As arqueólogas comentaram que se tratava de ossos de escravos recém-chegados ao País, os chamados Pretos Novos. Mas eu nem sabia o que era isso. Pesquisei na internet, em livros de história e nada. Nenhuma informação. Percebi certa negação nesta parte da história. Havia pouquíssimos registros dessa chegada e da vida do negro africano na colônia. Ao longo dos anos, vários pesquisadores, professores, arqueólogos e curiosos passaram por aqui. Foi um período de troca de informações. Com eles aprendemos muita coisa. Ao todo, foram encontradas 28 ossadas. Análises arqueológicas mostram que foram enterrados adolescentes entre 12 e 18 anos e crianças de 3 a 10 anos, mas predominam mostras do sexo masculino com idade entre 18 e 25 anos.

Em que condições o material foi achado?

Todos quebrados. Literalmente em pedaços, de crânio, de costela, dentes, mandíbula, nenhuma peça completa. Isso indica como eram tratados os cadáveres negros. Este não era um cemitério com covas, os corpos eram simplesmente jogados aqui, e se amontoavam um em cima do outro. Também encontramos pedaços de louças, ostras e miçangas. Tempos depois, descobrimos que as ostras estavam aqui por conta dos sambaquis que existiam na região há muitos anos. E, mais tarde, com a ajuda de um professor especializado em arqueologia, descobrimos restos de uma fogueira indígena datada do século XVI.

O desconhecimento e a própria negação deste período da história fizeram com que vocês criassem o Instituto Pretos Novos?

Trabalhamos com tudo que possa valorizar a cultura negra. Temos grade de oficinas fechada até o mês de novembro (para acessar a grade de cursos clique aqui). As atividades são diversificadas e remontam esse período da história, além de avançar na cultura afro-brasileira. Para inscrição, basta enviar e-mail com nome, RG, CPF, endereço, telefone e oficina de interesse para pontodecultura@pretosnovos.com.br. Estamos montando uma biblioteca. A ideia é que este lugar se torne também um ponto de leitura da cultura e história negra. Já temos 600 títulos. Vamos inaugurar agora em outubro.

Antes você era a proprietária do imóvel do antigo cemitério de escravos. Hoje é a presidente do Instituto dos Pretos Novos. Como você se sente diante dessa responsabilidade?

Fico muito emocionada e feliz por fazer parte disto. Não desenterramos apenas o cemitério, mas sim toda uma história de dor, luta e sofrimento. Anos de negação de um passado que fez com que o País se tornasse o que é hoje. Hoje vejo um movimento de resgate. Pessoas preocupadas em reestabelecer contato com uma parte da história que pouco se sabia. Mesmo assim, ainda existe a discriminação racial, e sinto vergonha disso. Sou filha de imigrantes europeus. Meu marido tem origem alagoana e ascendência holandesa. Desde 1996, estamos nessa luta e, mesmo com todas as dificuldades, nós nos sentimos felizes em fazer parte desse movimento.

Arqueólogos na casa analisam as descobertas em 1996

Por que é importante cobrir o material arqueológico com pirâmides? Como foi feita essa escolha?

Precisávamos preservar as janelas abertas e mostrar o terrível crime cometido contra a humanidade. Os negros não foram respeitados nem na hora da morte, os ossos quebrados são a prova disso. Iríamos cobrir com vidros retos, mas mães de santo sugeriram o uso de pirâmides, para que ninguém pudesse pisar.

O IPN promove um evento na próxima quarta-feira, dia 12 de setembro. Qual será a programação?

Teremos dois momentos. A inauguração das pirâmides será às 17h, com uma manifestação religiosa com mães de santo. Vamos descobrir as pirâmides, que estarão protegidas com toalhas feitas manualmente por Dona Zilla, filha de ex-escravos. Em seguida, será a inauguração da Galeria Pretos Novos, com a exposição "Nova Arqueologia", que apresenta trabalhos de 19 artistas e tem curadoria de Marco Antônio Teobaldo. Será a única galeria de arte contemporânea sobre um sítio arqueológico no País.

Texto: Mariana Aimée / Fotos: Mariana Aimée e arquivo pessoal

06/09/2012