Cemitério dos Ingleses completa 201 anos

Obras, Social | 29/11/2012

Cemitério dos Ingleses completa 201 anos

Com a promulgação do Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, a comunidade britânica no Brasil recebeu permissão para construir um cemitério e uma igreja anglicana em terreno de 4 mil m² na Rua da Gamboa 181. Assim, em 1811, há 201 anos, surgiu oficialmente o primeiro cemitério a céu aberto do Brasil. A antiga chácara pertencente ao Lorde Simão Martins era chamada de Forno do Cal. As terras foram compradas em 1809 por Dom João VI e incorporadas aos bens da Coroa Portuguesa. Dois anos depois, passou a funcionar o 'British Burial Ground' ou o que conhecemos hoje como Cemitério dos Ingleses.

A partir da década de 80, pessoas de qualquer nacionalidade foram aceitas pelo cemitério, antes restrito a britânicos. O administrador Adolfo José Cappelli explica o aumento da demanda no período: "À época, houve grande procura por se tratar de um mercado detido. Era novo, as pessoas ficam mais interessadas. Cerca de 25% dos jazigos ativos é de brasileiros que moravam aqui no Rio. Depois a procura diminuiu. Atualmente fazemos um funeral por mês. Alguns corpos ainda são enviados aos túmulos de seus familiares", justifica. De acordo com a administração, aproximadamente 2 mil pessoas estão enterradas lá.

Quem visita o espaço se depara com cenário de muita natureza a poucos metros do Centro. A vegetação da época da construção, mangueiras seculares, dá muita sombra e frescor, ajudando a aplacar o calor intenso. Diferente das grandes áreas horizontais típicas de cemitérios, o terreno é um pouco irregular e inclinado. Do topo, era possível ver o mar, mas a vista se perdeu quando aterraram a região. Tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, Capelli explica que, para manter o cemitério sempre limpo e bem cuidado, há quatro funcionários. Wilson Alves, encarregado dos zeladores, trabalha na manutenção há 38 anos. Sua curiosidade o levou a pesquisar a área e hoje, além de saber a história de cabeça, guarda na manga várias curiosidades.

"Eu trabalhei para as mesmas pessoas a vida inteira. Fui contratado pela Embaixada Britânica e mais de uma década depois me transferiram pra cá. A história desse lugar é muito rica. Ainda quero saber mais. Esse terreno, por exemplo, é tão irregular porque no começo, os marujos morriam no Cais do Porto e eram enterrados aqui. Isso era feito sem muito critério e pelos próprios companheiros. Essa é a razão de ninguém poder dizer qual desses é o primeiro túmulo", relata Wilson.

Logo na entrada, à direita, o espaço "War Grave", destinado aos corpos dos combatentes britânicos da Primeira e da Segunda Guerra Mundial , chama a atenção. "Todos olham assim que entram", conta Wilson. Próximo aos túmulos, uma das poucas inscrições em português podem ser vistas no cemitério: "Ao primeiro-almirante Lord Thomas Cochrane e aos valorosos oficiais e marujos britânicos da Armada Nacional e Imperial, que tanto contribuíram para a causa da Independência, homenagem da Marinha brasileira 14-12-1975".

No ponto mais alto do terreno fica a capela para cerimônias que podem ser de qualquer religião, não necessariamente anglicanas. O encarregado explica que a construção exibe peculiaridades dos ingleses. À época, a maioria das construções utilizava abóbadas de berço, em forma circular. A capela traz um misto, com a presença de abóbadas de berço nas portas e abóbadas de ogiva no teto, características do estilo gótico.

O cemitério fica aberto à visitação de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h.

 

Texto e fotos: Yara Lopes