Foto: Bruno Bartholini

O Cais do Valongo é um sítio arqueológico dos vestígios do antigo cais de pedra construído pela Intendência Geral de Polícia da Corte do Rio de Janeiro para o desembarque no Rio de Janeiro de africanos escravizados a partir de 1811. Em julho de 2017 foi reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O objetivo do cais era retirar da Rua Direita, atual Primeiro de Março, o desembarque e o comércio de africanos escravizados. Assim, o Valongo se tornou a principal porta de entrada do País. Os escravos acabavam nas plantações de café, fumo e açúcar do interior e de outras regiões do Brasil. Os que ficavam geralmente terminavam como escravos domésticos ou usados como força de trabalho nas obras públicas. A vinda da família real portuguesa para o Brasil e a intensificação da cafeicultura ampliaram consideravelmente o tráfico.

Em 1831, com a proibição do tráfico transatlântico por pressão da Inglaterra, o Valongo foi oficialmente fechado. Porém a ordem foi solenemente ignorada e daí surge a expressão irônica “para inglês ver”. Entre a construção do cais e a proibição do tráfico, estima-se que ingressaram no País entre 500 mil e um milhão de escravos de diversas nações africanas, em sua maioria, do Congo e Angola. O Rio de Janeiro, em quase quatro séculos de escravidão, recebeu sozinha cerca de 20% de todos os africanos escravizados que chegaram vivos às Américas. Isso faz da cidade e do Cais do Valongo referência do que foi a maior transferência forçada de população na história da humanidade.

Ao longo dos anos, o Cais sofreu sucessivas transformações. Uma das principais foi em 1843, quando foi remodelado para receber a Princesa das Duas Sicílias, Teresa Cristina Maria de Bourbon, noiva do Imperador D. Pedro II, passando a se chamar Cais da Imperatriz. Com as reformas urbanísticas da cidade no início do século XX, o local foi aterrado em 1911.

CIRCUITO DA HERANÇA AFRICANA
Um século depois, em 2011, as obras de reurbanização do Porto Maravilha permitiram o resgate do sítio arqueológico. Em 2012, a Prefeitura do Rio de Janeiro acatou a sugestão do Movimento em Defesa do Direito do Negro e transformou o espaço em monumento preservado e aberto à visitação pública. O Cais do Valongo passou a integrar o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que estabelece marcos da cultura afro-brasileira na Região Portuária, ao lado do Jardim Suspenso do Valongo, Largo do Depósito, Pedra do Sal, Centro Cultural José Bonifácio e Cemitério dos Pretos Novos.


ACHADOS ARQUEOLÓGICOS
A coleção arqueológica coletada no local é considerada excepcional pela quantidade e concentração de materiais associados à Diáspora Africana. São aproximadamente 1.200.000 peças que dão acesso aos costumes, vida cotidiana, simbolismo religioso e à resistência dos africanos escravizados ao sistema que lhes era imposto. Foram encontrados objetos como partes de calçados, botões feitos com ossos, colares, amuletos, anéis e pulseiras em piaçava de extrema delicadeza, jogos de búzios e outras peças usadas em rituais religiosos. Entre os achados raros, há uma caixinha de joias esculpida com desenhos de uma caravela e de figuras geométricas no tampão. A coleção ainda se encontra em processo de análise pela quantidade e complexidade dos materiais encontrados. Todo o processo de identificação e análise prévia, conservação e guarda foi previamente autorizado e vem sendo acompanhado pelo Iphan.



Desde 2012, um ritual se repete todos os anos nas pedras do Cais durante o primeiro sábado de julho. Sacerdotisas de religiões de matriz africana - mães de santo, como são conhecidas – conduzem um ritual de limpeza, purificação e homenagem aos espíritos dos ancestrais que passaram como cativos pelo local. Cantos religiosos, água de cheiro, flores e votos de amor e paz ocupam o Cais do Valongo nessa ocasião.
 
VISITAS GUIADAS


Foto: Bruno Bartholini

Cariocas e turistas podem percorrer os seis pontos do Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana em visitas guiadas gratuitas. Com apoio da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp) por meio do programa Porto Maravilha Cultural, o Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos (IPN) abriu inscrição para 40 grupos ao longo de 2016. O percurso dura em média duas horas e meia com roteiro que parte do Largo de São Francisco da Prainha, passa pela Pedra do Sal, sobe o Morro da Conceição e chega ao Jardim Suspenso do Valongo de onde se vê o Largo do Depósito de cima. Na Praça Jornal do Comércio, o grupo visita o Cais do Valongo. Na Rua Pedro Ernesto, os dois últimos pontos são Centro Cultural José Bonifácio (CCJB) e Cemitério dos Pretos Novos. Inscrições

DOCUMENTOS SOBRE O CAIS DO VALONGO
 
Decreto municipal que cria o Circuito da Herança Africana 
 
Dossiê candidatura a Patrimônio da Humanidade

ESTUDOS E ARTIGOS
 
Valongo, Cais dos Escravos: memória da diáspora e modernização portuária na cidade do Rio de Janeiro, 1668 – 1911
Carlos Eugênio Líbano Soares | Museu Nacional - UFRJ | 2013

Cemitério dos Pretos Novos, Rio de Janeiro, Século XIX: uma tentativa de delimitação espacial
Reinaldo Bernardes Tavares | Universidade Federal do Rio de Janeiro | Rio de Janeiro 2012
 
Porto Maravilha: Onde passado e futuro se encontram
Artigo de Alberto Silva, presidente da Cdurp | 2015

O cais, o píer e o amanhã
Artigo de Alberto Silva, presidente da Cdurp | 2016