O Cais do Valongo é um sítio arqueológico dos vestígios do antigo cais de pedra construído pela Intendência Geral de Polícia da Corte do Rio de Janeiro para o desembarque no Rio de Janeiro de africanos escravizados a partir de 1811. O objetivo era retirar da Rua Direita, atual Primeiro de Março, o desembarque e o comércio de africanos escravizados. Assim, o Valongo se tornou a principal porta de entrada do País. Os escravos acabavam nas plantações de café, fumo e açúcar do interior e de outras regiões do Brasil. Os que ficavam geralmente terminavam como escravos domésticos ou usados como força de trabalho nas obras públicas. A vinda da família real portuguesa para o Brasil e a intensificação da cafeicultura ampliaram consideravelmente o tráfico.

Em 1831, com a proibição do tráfico transatlântico por pressão da Inglaterra, o Valongo foi oficialmente fechado. Porém a ordem foi solenemente ignorada e daí surge a expressão irônica “para inglês ver”. Entre a construção do cais e a proibição do tráfico, estima-se que ingressaram no País entre 500 mil e um milhão de escravos de diversas nações africanas, em sua maioria, do Congo e Angola. O Rio de Janeiro, em quase quatro séculos de escravidão, recebeu sozinho cerca de 20% de todos os africanos escravizados que chegaram vivos às Américas. Isso faz da cidade e do Cais do Valongo referência do que foi a maior transferência forçada de população na história da humanidade.

Ao longo dos anos, o Cais sofreu sucessivas transformações. Uma das principais foi em 1843, quando foi remodelado para receber a Princesa das Duas Sicílias, Teresa Cristina Maria de Bourbon, noiva do Imperador D. Pedro II, passando a se chamar Cais da Imperatriz. Com as reformas urbanísticas da cidade no início do século XX, o local foi aterrado em 1911.

CIRCUITO DA HERANÇA AFRICANA
Um século depois, em 2011, as obras de reurbanização do Porto Maravilha permitiram o resgate do sítio arqueológico. Em 2012, a Prefeitura do Rio de Janeiro acatou a sugestão do Movimento em Defesa do Direito do Negro e transformou o espaço em monumento preservado e aberto à visitação pública. O Cais do Valongo passou a integrar o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que estabelece marcos da cultura afro-brasileira na Região Portuária, ao lado do Jardim Suspenso do Valongo, Largo do Depósito, Pedra do Sal, Centro Cultural José Bonifácio e Cemitério dos Pretos Novos.


CANDIDADO A PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE
O sítio do Cais do Valongo corresponde à área da Praça Jornal do Comércio e está delimitado pela Avenida Barão de Tefé, Rua Sacadura Cabral e pela lateral do Hospital dos Servidores do Estado. No dia 20 de novembro de 2013 (Consciência Negra), o Cais do Valongo foi alçado a patrimônio cultural da cidade por meio do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH). Representantes da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) incluíram o sítio arqueológico como parte da Rota dos Escravos.

O reconhecimento da Unesco reforçou ainda mais a intenção da cidade e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) de lançar a candidatura do Cais do Valongo a Patrimônio da Humanidade em janeiro de 2014. O dossiê de candidatura foi aprovado em março de 2016, e a partir de agora a Unesco analisará tecnicamente as informações. A candidatura será apreciada em reunião do conselho em julho de 2017.

ACHADOS ARQUEOLÓGICOS
A coleção arqueológica coletada no local é considerada excepcional pela quantidade e concentração de materiais associados à Diáspora Africana. São aproximadamente 1.200.000 peças que dão acesso aos costumes, vida cotidiana, simbolismo religioso e à resistência dos africanos escravizados ao sistema que lhes era imposto. Foram encontrados objetos como partes de calçados, botões feitos com ossos, colares, amuletos, anéis e pulseiras em piaçava de extrema delicadeza, jogos de búzios e outras peças usadas em rituais religiosos. Entre os achados raros, há uma caixinha de joias esculpida com desenhos de uma caravela e de figuras geométricas no tampão. A coleção ainda se encontra em processo de análise pela quantidade e complexidade dos materiais encontrados. Todo o processo de identificação e análise prévia, conservação e guarda foi previamente autorizado e vem sendo acompanhado pelo Iphan.



Desde 2012, um ritual se repete todos os anos nas pedras do Cais durante o primeiro sábado de julho. Sacerdotisas de religiões de matriz africana - mães de santo, como são conhecidas – conduzem um ritual de limpeza, purificação e homenagem aos espíritos dos ancestrais que passaram como cativos pelo local. Cantos religiosos, água de cheiro, flores e votos de amor e paz ocupam o Cais do Valongo nessa ocasião.
 
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DOCUMENTOS SOBRE O CAIS DO VALONGO
 
Decreto municipal que cria o Circuito da Herança Africana 
 
Dossiê candidatura a Patrimônio da Humanidade

Dossiê candidatura a Patrimônio da Humanidade - English


ESTUDOS E ARTIGOS
 
Valongo, Cais dos Escravos: memória da diáspora e modernização portuária na cidade do Rio de Janeiro, 1668 – 1911
Carlos Eugênio Líbano Soares | Museu Nacional - UFRJ | 2013

Cemitério dos Pretos Novos, Rio de Janeiro, Século XIX: uma tentativa de delimitação espacial
Reinaldo Bernardes Tavares | Universidade Federal do Rio de Janeiro | Rio de Janeiro 2012
 
Porto Maravilha: Onde passado e futuro se encontram
Artigo de Alberto Silva, presidente da Cdurp | 2015

O cais, o píer e o amanhã
Artigo de Alberto Silva, presidente da Cdurp | 2016