VLT: o visível, o invisível e o intangível

 

 

O Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) começou a operar em modo de Marcha Branca em junho de 2016. Funcionará das 12h às 15h em velocidade reduzida e fazendo apenas algumas paradas sem cobrança de tarifa. A previsão é a de que ao longo das próximas semanas o período de operação seja ampliado, assim como o trajeto, até alcançar todo o trecho da Etapa 1, entre a Rodoviária Novo Rio e o Aeroporto Santos Dumont. 

Como modal integrador, reforça profundamente a necessária integração dos transportes públicos para elevar o patamar de qualidade da mobilidade urbana do Rio de Janeiro. Da ideia de implantar o VLT até este momento de início de operação o caminho de incontáveis obstáculos. E ainda há desafios a transpor. Mas graças à determinação da Prefeitura do Rio de Janeiro, e o trabalho da Concessionaria VLT Carioca, o grande passo foi dado. 

Entre os projetos básicos iniciais e a efetiva construção do sistema, houve ajustes. O novo modal entra em uma cidade que já existe, que tem muito para melhorar, inclusive no sentido de preservar e valorizar seu patrimônio. Por isso a opção de um sistema sem redes aéreas de energia, assim como paradas de arquitetura leve e transparente. A quantidade de paradas, por exemplo, passou por  adequações em função das características urbanísticas dos trajetos ou da busca pela eficiência do sistema. 

O traçado definido recupera caminhos dos bondes de outrora. O fato de passar por ruas antigas da cidade trouxe desafios não somente na superfície, mas também no subsolo das ruas e avenidas. A maioria das pessoas não se dá conta, mas sob o pavimento há as redes de água, esgoto, gás, energia elétrica e telecomunicações. As maiores, em geral, são as de drenagem. Para a colocação dos trilhos, é preciso remanejar essas redes na maioria dos casos. Ou seja, fazer novas redes. E, é claro, isso deve ser feito sem interromper os serviços. Além disso, como são muito antigas, e seus cadastros são precários e imprecisos, muitas surpresas surgiam a todo momento, retardando o cronograma de trabalho. Nas ruas na Região Portuária, a operação Porto Maravilha vinha fazendo esse trabalho. De fato, em alguns casos, tomou-se mais tempo para remanejar estas redes do que fazendo a obra do VLT propriamente dita. Com o fim das obras, a infraestrutura de boa parte das ruas por onde passa o bonde está recuperada e com cadastros atualizados. O que melhora e muito a condição para a manutenção desta parte da cidade. E este é um dos ganhos invisíveis. 

O trânsito de veículos, em particular, os ônibus, causa emissão de gases e também intensa vibração - o que afeta construções antigas. Agora, com o VLT, níveis de emissão e vibração serão drasticamente reduzidos, como mais um efeito positivo para o patrimônio histórico de nossa cidade. Configura mais um dos ganhos invisíveis trazidos pelo VLT.

O fato de já nascer integrado ao Bilhete Único reforça a lógica da integração dos modais. Característica que tantos que têm ou tiveram a oportunidade de visitar outros países elogiam e apontam como solução para a cidade. 

Mas há uma dimensão importantíssima da introdução do VLT em nosso sistema de transporte publico. Ele induz a todos nós a um novo patamar de civilidade. A atenção à sua movimentação é uma oportunidade para melhorar nossa percepção e comportamento pelas ruas da cidade como pedestres ou motoristas. A velocidade é outro fator qualificador desse comportamento. Todos reclamam do frenético ritmo da vida atual. Ao cruzar as ruas e praças movimentadas a uma velocidade baixa, além da segurança, representa também oportunidade confortável de contemplação das belas paisagens urbanas de nossa cidade. A validação voluntária passa a ser um exercício, no plano individual, do padrão ético que hoje a sociedade conclama para todos os níveis da vida pública. 

O planejamento para iniciar o funcionamento do sistema, além de atender aos requisitos técnicos operacionais e de segurança, carrega função pedagógica fundamental para a integração do novo modal na paisagem urbana e no cotidiano das pessoas. Os primeiros testes sem passageiros já serviram para apresentar o VLT em movimento para os frequentadores da região central da cidade. Com o início da Marcha Branca, muitos terão oportunidade de fazer as primeiras viagens e vivenciar esse novo modo de circular pelo centro da cidade. E de graça. Assim, a ampliação lenta e gradual da operação permite que ocorram os ajustes na convivência de pedestres e motoristas com o bonde moderno. 

Seria muito relevante que aqueles que defendem uma cidade melhor e mais humanizada percebessem essas oportunidades trazidas pelo VLT e contribuíssem para potencializá-las. O trem é bonito, e o sistema é o mais moderno. A mobilidade urbana ganha racionalidade. Mas o intangível dessa experiência é que ela possibilita um novo patamar de cidadania e qualidade de vida. E isso o Rio e os cidadãos cariocas merecem.

Por Alberto Gomes Silva, presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp)
Junho de 2016