O Cais, o Píer e o Amanhã

O Cais do Valongo, na atual Avenida Barão de Tefé, coberto pelo Cais da Imperatriz em 1843, enterrado para a construção do moderno porto do Rio de Janeiro entre 1902 e 1910, esteve por todo este tempo soterrado na paisagem urbana e, pior, na memória coletiva, mesmo para a grande maioria do movimento negro. A cerca de 1,5 km de distância do Cais, o Píer Mauá, construído na década de 1940, nunca funcionou como tal. Terreno baldio sobre a Baía de Guanabara, no máximo, serviu de estacionamento de ônibus para, nas palavras de certos operadores, “evacuarem” turistas do porto.


Cais do Valongo e Museu do Amanhã, dois lugares desconectados na história e no espaço

Dois lugares desconectados na história e no espaço. O primeiro perdeu a função que nunca deveria ter tido. O segundo nunca chegou a desempenhar a sua. Em comum, esquecimento e desconhecimento.
 
Pelo Cais do Valongo, ao longo de 40 anos, após a atlântica travessia, desembarcaram ao menos 500 mil africanos escravizados, segundo estudos mais conservadores. Os que não sobreviveram tiveram corpos jogados no Cemitério dos Pretos Novos, a 1 km de distância, na atual Rua Pedro Ernesto. Os demais, quando refeitos da viagem eram expostos para venda no Largo do Depósito, na Rua do Valongo, atual Camerino. Área em que mais tarde foi construído, entre 1902 e 1910, o Jardim Suspenso do Valongo com a Casa da Guarda e o Mictório Público. Durante anos, escravos carregavam sacas de sal escalando a pedra que ganhou este nome, cruzando o Morro da Conceição até os armazéns da Rua Estreita, hoje Avenida Marechal Floriano. Na base da Pedra do Sal, na virada para o século XX, João da Baiana, Donga, Pixinguinha e outros inventavam o samba.
 
Também na atual Avenida Barão de Tefé, encontra-se a Doca Pedro II, Galpão da Ação da Cidadania. Construção mais moderna do Império, erguida por André Rebouças, primeiro engenheiro negro brasileiro. E na Rua Pedro Ernesto, a 200 metros do Cemitério dos Pretos Novos, Dom Pedro II manda construir o Colégio José Bonifácio, uma das primeiras escolas públicas do Brasil para atender a população da região majoritariamente de origem africana.
 
Esse conjunto de lugares representa um acervo ímpar da memória e da herança africana no Brasil. Lugares de dor, como o Cais e o Cemitério. E de reconstrução, como a Pedra do Sal e a Doca.
 
Literalmente desenterrado como resultado das obras do Porto Maravilha, o Cais do Valongo é transformado em Memorial à Herança Africana por decisão do prefeito Eduardo Paes. Na inauguração, em julho de 2012, foi criado o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana. Composto pelo Cais, pelo Cemitério, pela Pedra do Sal, pelo Centro Cultural José Bonifácio, pelo Jardim Suspenso do Valongo e pelo Largo do Depósito, o circuito é iniciativa do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) com a participação da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp), da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), da Coordenadoria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Ceppir), do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro (Comdedine), do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) e de organizações da sociedade civil, como o Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos (IPN), acadêmicos, intelectuais e lideres de religiões afro-brasileiras.
 
O Cemitério dos Pretos Novos recebe mais visitantes a cada ano. O Centro Cultural José Bonifácio, restaurado, segue dedicado à cultura afro-brasileira. O Largo do Depósito, também conhecido como Praça dos Estivadores, passou por obras de recuperação e infraestrutura. A Pedra do Sal, bem tombado estadual, teve seu entorno reconhecido por Lei Municipal como Área de Especial Interesse Cultural do Quilombo da Pedra do Sal em 2014. O Jardim Suspenso do Valongo, construído no ponto do comércio de escravos, tem agora suas duas edificações - a Casa da Guarda e o Mictório Público - cedidas para organizações que lidam com a herança africana, a Organização Cultural Remanescentes de Tia Ciata (ORTC) e o Centro Cultural Pequena África (CCPA).
 
Em ação conjunta dos governos municipal, estadual e federal, com participação da sociedade civil, sob coordenação do Iphan, o Cais do Valongo é candidato a Patrimônio da Humanidade em processo em análise pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O que certamente vai ampliar ainda mais o reconhecimento e a visibilidade do Cais e de todo o Circuito.
 
Jogar luz sobre estes lugares de memória, apoiar e valorizar manifestações culturais de matriz africana constitui-se fundamental para encarar nossas vergonhas, reler nossa história e, para além das dores, buscar superar nossas ainda profundas desigualdades para um amanhã melhor.
 
Construído sobre o Píer Mauá, o Museu do Amanhã imprime novo significado àquele lugar, tornando o que era vazio, sem função, espaço público. Com acesso gratuito para moradores da Região Portuária, professores e estudantes da rede pública e praticando preços populares, o equipamento cultural é acessível à maioria da população. Visitar o parque ao redor provoca a sensação de olhar a cidade a partir da Baía de Guanabara. Mas também acende o olhar para a própria Baía. Ícone arquitetônico, seu conteúdo pretende provocar, a partir de dados das ciências e de tecnologias interativas, uma reflexão sobre relações sociais, práticas de consumo e uso de recursos naturais para a sustentabilidade do planeta. Por dentro e por fora, o Museu nos convida a reler e rever nossas opiniões e posições sobre o lugar, o hoje e o amanhã.
 
O Píer reinventado pelo Museu e pelo Cais em sintonia com o Circuito da Herança Africana é redescoberto, reconhecido e institucionalizado. Museu e Cais, partes diferentes do Porto Maravilha, cada um com sua função, eles se complementam para que possamos refletir e construir agendas para superar nossas desigualdades. Ambos instigam reflexão ética e política sobre a cidade e a cidadania que queremos e merecemos.

Alberto Gomes Silva, presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro, empresa da Prefeitura do Rio gestora do Porto Maravilha