Porto Maravilha e inclusão socioprodutiva II: a caminhada continua

Com o avanço das obras no Porto Maravilha e os primeiros lançamentos imobiliários, as transformações na região portuária ficam cada vez mais visíveis. A retirada do Elevado da Perimetral (re)descobriu paisagens da cidade esquecidas e mesmo desconhecidas de muitos. Transformou a percepção de dúvida e desconfiança em relação à operação urbana em pressa de ver tudo pronto. Mudou também a percepção da região para um grande campo de oportunidades.

Após pouco mais de quatro décadas de abandono, ainda com obras de infraestrutura e urbanização em curso, já é possível perceber a melhora na qualidade dos serviços na área. Mas o processo, embora avançando em bom ritmo, tem seu próprio tempo para ficar pronto.

Em sua criação, o Porto Maravilha estabeleceu como objetivo o desenvolvimento econômico e social da região e a valorização de seu patrimônio material e imaterial. Um dos efeitos óbvios dessas transformações urbanas é a valorização imobiliária. Outro é a criação de milhares de oportunidades de novos empreendimentos e empregos mais qualificados. O primeiro efeito surge nos momentos iniciais da operação. O segundo, conforme tratamos no artigo do boletim anterior, relacionado ao que chamamos de economia das obras – de surgimento também imediato, mas transitório, assim como a economia dos grandes eventos e a nova economia da região. Esta última (nova dinâmica econômica), perene, começa a dar os primeiros sinais com lançamentos imobiliários.

Tanto a valorização imobiliária como a chegada das oportunidades não são processos lineares. São desiguais e combinados no tempo e na intensidade. Sob o ponto de vista estratégico, tomamos desde o início a criação de oportunidades como antídoto para que a valorização imobiliária não tenha impacto negativo sobre a população local.

De fato, o pressuposto é o de que a política pública não deve obrigar as pessoas a deixar o lugar em que vivem, a não ser em situações de segurança ou de saúde pública. Mesmo no caso de demandas de reestruturação do espaço urbano, situações como essas devem buscar soluções negociadas. Na mesma linha, a política pública não pode obrigar ninguém a permanecer onde está. Deve oferecer as melhores oportunidades para que as pessoas possam fazer suas escolhas. Assim está sendo feito no Porto Maravilha.

Feira do Porto, no Largo de São Francisco da Prainha



Estratégias de fortalecimento das micro e pequenas empresas e de qualificação profissional ganham estrutura e ritmo. Desse modo, moradores, trabalhadores ou empreendedores são convidados a tomar parte, como protagonistas, na construção dessa nova economia. Interessante notar que para esses moradores as angústias dos primeiros momentos se dissiparam. Já miram novos horizontes. É fato também que cobranças e conflitos continuam, como parte do processo de transformação. O movimento é fundamental para o sucesso do Porto Maravilha em sua busca pela inclusão socioprodutiva. A ligação entre valorização do patrimônio e oportunidades econômicas tem se mostrado acertada sobremaneira nessa fase inicial (vale lembrar que a operação tem prazo de 15 anos renováveis por mais 15 e teve início efetivo em 2010). Atividades culturais e de lazer fortalecem a autoestima da população.

Manifestações tradicionais somadas a novas atividades e criação de equipamentos culturais, como o Museu de Arte do Rio (MAR), trazem também oportunidades quase imediatas, sobretudo no segmento de serviços, no negócio de bares e restaurantes. É visível ainda o aumento do interesse cultural pela região, com o crescimento constante dos grupos de visitas guiadas aos fins de semana.

Nessa caminhada, começa a construção do Porto Maravilha como polo da indústria criativa, reunindo atores que já existiam na área, como os artistas da Fábrica Bhering e comerciantes do movimento Sabores do Porto (donos de bares e restaurantes do Morro da Providência e do Pinto), e novos, como o Instituto Rua (que produz o ArtRua) e empresas de Tecnologia da Informação.

Feira do Empreendedor



No que toca à formação profissional, o foco tem sido no setor de bares e restaurantes. Isso inclui apoio aos negócios tradicionais, suporte aos novos empreendedores e parceria para a preparação de mão de obra qualificada. Estamos estruturando parceria com o setor hoteleiro e já temos, no momento, mil quartos distribuídos em três hotéis na região. Pelo menos outros três planejam iniciar obras até 2016, configurando importante fonte de emprego.

Com a entrega das obras de urbanização, novos espaços e novas atividades surgem. Em 2015, entra em operação o Museu do Amanhã. No início de 2016, a cidade ganhará um novo passeio público, arborizado, com 3,5 quilômetros de extensão e 215 mil metros quadrados, na Avenida Rodrigues Alves. O AquaRio, maior centro de pesquisa e visitação da América Latina do tipo, aumentará significativamente a atratividade da Zona Portuária como cenário de oportunidades.



Feira de Empregos e Estágios

Fundamental nesse processo tem sido o trabalho em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/RJ), o Sindicato de Hotéis Bares e Restaurantes (SindRio), a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e a Incubadora Afro-Brasileira no suporte à qualificação dos agentes econômicos da região. E seguimos na busca de novos parceiros para potencializar esforços.


Uma preocupação legítima é a de que o Porto Maravilha seja uma criação positiva tanto para a cidade quanto para seus atuais moradores e empreendedores. Estamos atentos a isso. A estratégia em curso mostra que ao melhorar e valorizar a região talvez possamos também aumentar o padrão de vida de seus atuais moradores, a partir da visão de que esta será uma área da cidade ideal para viver, trabalhar, entreter, produzir cultura e, enfim, ficar. Desse modo, se cumprirá o objetivo de construir uma cidade menos desigual e mais inclusiva.
Artigo de Alberto Silva, diretor-presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp), empresa da prefeitura responsável pela operação urbana Porto Maravilha

Publicado originalmente em Boletim semestral nº5, de agosto de 2015, pelo Observatório Sebrae/RJ.