O Barão está feliz

A cidade ainda debatia a remoção do Elevado da Perimetral quando, em outubro de 2011, a estátua do Barão de Mauá saiu de cena da praça que leva seu nome para a construção do Túnel Rio450, uma das obras mais importantes da operação Urbana Porto Maravilha. A estátua e a praça fazem justa homenagem a Irineu Evangelista de Sousa (1813-1889), empreendedor e abolicionista que, dentre outras tantas iniciativas criou a Companhia de Iluminação Pública à Gás, implantou a estrada de ferro ligando Petrópolis ao Porto de Mauá, no fundo da Baía de Guanabara, e o serviço de barcas que conectava o Rio de Janeiro ao porto, em clara visão de integração dos transportes.

Visão sempre foi o forte do Barão.

Construída na reforma Pereira Passos, no começo do século passado, a Praça Mauá representava a integração da cidade ao Porto e à Baía de Guanabara, marcando o início da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, também conhecida como Mar-a-Mar por cruzar o Centro até o outro ponto da Baía de Guanabara, na Cinelândia.
A inquietude e criatividade do Barão contaminaram a dinâmica do lugar. Ele deve ter apreciado acompanhar a inauguração do Palacete Dom João VI em 1916, antiga Inspetoria dos Portos; o vaivém de marinheiros entre navios, bares e boates no então modernizado Porto do Rio; a chegada de imigrantes cheios de esperança; o glamour dos transatlânticos no terminal marítimo de passageiros; a construção do Edifício A Noite e o frenesi do público com artistas, cantores e cantoras dos programas da Rádio Nacional nos anos 40 e 50. Afeito às novidades, apreciava também o movimento dos bondes.

Nos anos 1970, a estátua do Barão teve de se mudar pela primeira vez para a construção do Elevado da Perimetral para a era da primazia dos carros. A essa altura já não havia bondes. Ao retornar, deparou-se com uma praça encolhida e assistiu dali ao longo período de decadência e degradação urbana da região. Nem do alto do pedestal tinha mais a visão da Baia.

Após a remoção da Perimetral e a conclusão do Túnel Rio450, o Barão retorna em tempo de acompanhar o avanço da reurbanização de sua Praça Mauá e também da etapa final de construção do Museu do Amanhã, da transformação da Avenida Rodrigues Alves em passeio público e da implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). Nada mais afinado ao intrépido pensador, admirador da modernidade e das grandes obras. A praça do Palacete Dom João VI, restaurado depois de décadas de abandono, agora abriga o Museu de Arte do Rio (MAR). Ampliada, retoma sua função urbanística de ligar a cidade à Baía de Guanabara e simboliza a mudança de rumo no desenvolvimento do Rio. A imagem de Irineu Evangelista de Sousa, entre o moderno edifício RB1 e o histórico A Noite, de frente para o Museu do Amanhã, consolida o espírito da revitalização, iniciativa que poderia levar a sua assinatura nos dias de hoje.

Embora o barulho das máquinas e das obras ainda possa incomodar durante um tempo, certamente, nesta volta para a praça, o Barão está feliz.

Alberto Gomes Silva, presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro / Fotos: Pavel Loj e Bruno Bartholini / Fevereiro de 2015

Alberto Gomes Silva
Diretor-presidente